Serra dos Pireneus, cerrado e encanto.

Pirenópolis, originalmente chamada de Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte, é uma pitoresca cidade histórica de Goiás. Foi fundada em épocas bandeirantes como importante centro minerador. Mais tarde tornou-se referência na produção de algodão e berço da imprensa goiana, com o jornal Matutina Meiapontense ainda no século XIX. Pacata, a cidadezinha se enfeitava para festas religiosas e mantinha tradições antigas. Com seu casario tombado e ruas de ladrilhos de pedra, é nosso ponto de partida para descobrir um Goiás muito diferente, que floresceu em torno da Serra dos Pireneus e de seus planaltos e colinas.

Nossa viagem à segunda MICRORREGIÃO escolhida para nosso clube teve como objetivo descobrir, em meio ao cerrado, um modo de vida, migrantes, histórias, tradições e sustentabilidade, tudo feito por pessoas apaixonadas pelo lugar de onde são e onde escolheram viver.

A Serra dos Pireneus um importante divisor das bacias dos rios Tocantins e Paraná, que de um lado formam o Rio Corumbá e, do outro, o Rio das Almas. A região serrana compreende áreas de vegetação de campo sujo, campo limpo, campo úmido, floresta de galeria, vereda, cerrado e cerradão (floresta úmida semidecídual). Os Três Picos e o Morro Cabeludo se destacam entre essas formações, devido aos 1385 m de altitude no topo do Pico dos Pireneus. As terras altas e acidentadas revelam dezenas de impressionantes cachoeiras, muita fartura de água e enormes porções de mata ainda preservada. O nome da serra teria sido dado por assentados espanhóis, provavelmente catalães que, ao ver a serra, a compararam aos Pirineus na Europa.

Para nossa cesta buscamos produtores locais familiares que atuam com excelência e mantêm, de algum modo, o valor às coisas feitas de forma simples e em pequena escala. Famílias inteiras que, por gerações, vivem da terra e das belezas do cerrado. Tivemos a ajuda de parentes queridos e próximos que possuem uma pequena pousada, a Villa Bia, que resgata a tradição de se hospedar em uma casa tombada no centro histórico de Piri. Foi nossa base para encontrar as pessoas certas e selecionar os produtos mais representativos deste recanto.

 

Começamos pelos produtos típicos do cerrado que se tornaram emblemáticos. Logo veio à mente um lugar especial que fez parte de minha infância e adolescência: o Santuário da Vida Silvestre VAGAFOGO. É um modelo de área de preservação denominado Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e foi criada em 1990 para promover a educação ambiental, o ecoturismo e a produção sustentável de alimentos. De lá, as castanhas de Baru – nascidas em frondosas árvores -, torradas, ganham sabor incrível. Há também a geleia de uma fruta absolutamente típica local, a Cagaita. Junto ao o pequi e à gueroba, compõe uma tradição alimentar que veio dos povos indígenas, quilombolas e de colonos europeus.

Para rechear nossas cestas, não tínhamos dúvidas de que deveriam fazer parte do apanhado dois famosos queijos de inspiração suíça da família Gaehwiler. Eles são produzidos na Queijaria Alpina, no município vizinho de Corumbá. A produção é tocada por Stephan Gaehwiler, com ajuda de sua filha Clara. Eles têm rebanho próprio - inclusive de raças típicas suíças - e produzem queijos incríveis, com sabor dos Alpes, em pleno sertão de Goiás!

Uma das nossas ideias com a curadoria sempre foi juntar produtos criados por gente jovem e antenada a produtos bastante tradicionais, feitos por pessoas que estão na mesma região há tempos e que são parte do lugar e da história, mas que não tiveram a visibilidade merecida. Neste segundo caso, a cesta traz um ícone da produção caipira. Angélica Rosa, nascida em Pirenópolis, via desde criança seu pai fazendo Moça Branca, um subproduto derivado da tradicional rapadura. A calda é colocada em uma gamela, batida até dar o ponto e, a partir daí, modelada manualmente, o que confere beleza a cada Moça.  Angélica continuou a tradição e, hoje, ela divide a produção com seu genro. A rapadura tradicional é produzida em Cocalzinho e a Moça Branca, em sua chácara, na estrada que liga Corumbá a Pirenópolis.

Nesta edição, todos os assinantes da cesta levam uma bebida; já estávamos ansiosos por adicionar uma cerveja, de cuja cultura surgiu o Cateto. Escolhemos a mais representativa das cervejarias goianas, a Colombina, e a Romaria, um rótulo lindo que celebra a festa do divino e as romarias. Ele leva a quase sagrada baunilha do cerrado em sua receita. A Colombina conta a história do cerrado em cada um de seus produtos, com objetivo de preservar, promover e valorizar os frutos da região.

Incluímos na cesta, também, produtos cosmopolitas e contemporâneos, mas com olhar cuidadoso para os insumos e vivência locais. Trouxemos uma surpresa na forma de doce, a Barutella, um creme à base da castanha símbolo da região, feito com receita e inspiração italiana por um italiano que descobriu o cerrado e fez dele seu lar e sua empresa.

E, por último, fomos surpreendidos com a família Sicari, que tocava um restaurante com sotaque italiano e gastronomia do velho mundo. Pai (Mauro) e filhos (Pedro e Vicente) que, durante anos, viveram e aprenderam nas tradicionais regiões produtoras da arte da salumeria italiana. Agora, tocam uma pequena propriedade rural onde produzem leite que dá origem a queijos incríveis, incluindo as belas Scamorzas que levamos até vocês. Mas o que mais surpreendeu foi a charcutaria natural, sem conservantes (você pode ter sua opinião sobre isso, mas nosso papel e instigar e revelar, não julgar) que usa só o tempo (em média 8 meses de maturação, o que é bastante) para produzir cortes tradicionais da salumeria italiana, como Copa, Speck, Pancetta e Dosso de porcos caipiras criados longe, na Serra da Canastra, mantidos a soro de leite e em manejo livre, ou seja, criados soltos pelo pessoal da Pingo de Amor. Parcerias como esta fazem acreditar que o produto artesanal no Brasil nunca esteve tão vivo. Um achado mantido a sete chaves, produzido em pequeníssima escala e que tivemos muito orgulho e carinho em conseguir trazer para nosso apanhado.

Nos foi dada a difícil tarefa de colocar o cerrado e a Serra dos Pireneus em um apanhado que mantivesse o DNA do clube e, mesmo assim, fosse pertinente o suficiente para reunir o que há de mais que rico na região. Chegamos a esta edição com a certeza de que sempre vale sair do óbvio e explorar estradinhas estreitas que levam a lugares mágicos, como a Serra dos Pireneus.

Nem sempre a terra dá de tudo, mas sempre dá o que tem de melhor.

A MICRORREGIÃO 02 está prontinha e logo chegará à sua casa, entre os dias 6, 7 e 8 de julho. Aguarde.